Archive for the ‘América Latina’ Category
Saturday, December 26th, 2009
O ano de 2010 será bastante movimentado na América Latina. No
Uruguai, o ex-guerrilheiro tupamaro José Mujica toma posse como
novo Presidente. Ele será o responsável por dar continuidade às conquistas
econômicas e sociais inauguradas pela Frente Ampla no governo do atual
Presidente, Tabaré Vázquez, em 2005. No entanto, como toda troca de
governo, haverá mudanças. Há um debate, ainda que silencioso, sobre a
manutenção ou não do Uruguai como membro do Mercosul. Há importantes
correntes entre os aliados de Mujica que defendem uma postura uruguaia
mais próxima à postura chilena: ser associado, mas com poderes para
executar as parcerias comerciais de seu interesse. Com a chegada da
Venezuela, há um sentimento de que a força uruguaia, que já era pequena,
ficará menor ainda. Além disso, a provável politização do Mercosul não
favorece o Uruguai.
Ainda assim, acredito que 2010 será mais um ano equilibrado no Uruguai. Um
dos grandes desafios de Mujica será manter a população jovem no país, já
que o povo uruguaio está, em média, cada vez mais velho. A tendência de
jovens uruguaios é seguir estudos na Argentina ou em outros países, o que
prejudica a força de trabalho do país. Mujica terá de investir para que os
jovens uruguaios sintam que poderão ter oportunidades semelhantes de
trabalho em seu próprio país.
No Chile, após 20 anos no poder, a Concertación – coalizão de
centro-esquerda que governa o país desde 1990 – corre o risco de ser
derrotada pela forças de centro-direita, agrupadas em torno de Sebastian
Piñera, da Aliança por Chile. Ele disputará o segundo turno contra o
ex-presidente Eduardo Frei, representante da Concertación, no dia 17 de
janeiro. Assim como no Uruguai, o Chile encontra-se no “piloto
automático”. Fundamentos econômicos não são pontos de divergência entre os
candidatos, mas pontos de convergência. Com uma campanha inteligente,
Piñera evitou ataques contra Eduardo Frei e preferiu caracterizar o
Concertación como a “manutenção da velha política chilena”. Piñera se
coloca como o candidato que manterá as conquistas do Concertación, mas com
melhorias. Para conquistar um público ainda mais amplo, Piñera saiu um
pouco da postura conservadora e passou a defender casamento entre
homossexuais e distribuição da pílula do dia seguinte. Por outro lado,
mesmo com uma popularidade acima de 80%, Michelle Bachelet não conseguiu
transferir isso a Eduardo Frei.
No Brasil e na Colômbia, a agenda política girará em torno
das eleições. No Brasil, amparado na popularidade do Presidente Lula, o PT
tentará chegar ao terceiro mandato consecutivo com a ministra Dilma
Rousseff. Pelo lado da oposição, o governador de São Paulo, José Serra
(PSDB), tenta conduzir os tucanos novamente ao poder. A não ser que surja
um fato novo, a eleição brasileira tende a ser novamente polarizada entre
PT e PSDB, o que já ocorre desde 1994. Por ora, o placar dessa disputa
está em 2×2: Fernando Henrique Cardoso (PSDB) venceu em 1994 e 1998, e o
PT deu o troco em 2002 e 2006, elegendo e reelegendo Lula. A decisão dos
vices deverá ser o grande assunto na virada do ano. Pelo lado de Dilma,
Michel Temer perde força a cada dia e Henrique Meirelles ganha força. No
lado de Serra, o senador Agripino Maia é um nome que está sendo bem
cotado, e por isso é um dos que mais luta para que houvesse a saída do
governador José Arruda de seu partido, o Democratas.
Na Colômbia, o cenário pré-eleitoral está indefinido. O Presidente
Álvaro Uribe, embora não tenha anunciado, pretende buscar o terceiro
mandato consecutivo. No entanto, precisa que a Suprema Corte dê o aval
para a realização do referendo popular. Enquanto esta questão não for
resolvida, o tabuleiro eleitoral ficará com suas peças incompletas. Se for
candidato, Uribe entra como franco favorito e deve ser reeleito com
facilidade. Por sua vez, se o Presidente ficar impedido de buscar a
segunda reeleição consecutiva, o “plano B” é o ex-ministro da Defesa, Juan
Manuel Santos. Mesmo assim, Uribe seria plenamente capaz de eleger Juan
Manuel Santos. Sua impressionante popularidade e a confiança da população
em seu governo levaria uma grande parcela da população a votar em um
candidato escolhido por Uribe. No entanto, a tendência é realmente que
Uribe seja candidato.
Na Argentina e no México, o foco estará nas questões
econômicas. Na Argentina, estima-se que a inflação fechará 2009 em alta de
35%. Para piorar as coisas, o Kirchnerismo está perdendo força política.
Em 2007, ano em que se elegeu Presidente da Argentina, Cristina Kirchner
tinha uma popularidade de 55% e o apoio de 20 dos 24 governadores. Além
disso, contava com maioria no Congresso Nacional. Na Câmara, 161 dos 257
deputados eram Kirchneristas. No Senado, 47 dos 72 senadores faziam parte
de sua base. Cerca de dois anos depois, o capital político da mandatária
argentina foi seriamente afetado. Na Câmara, o Kirchnerismo conta com 104
dos 257 deputados em sua base. No Senado, 36 dos 72 senadores são
governistas. Para piorar as coisas, atualmente, apenas dez dos 24
governadores apoiam Cristina Kirchner. Com tantos problemas pela frente,
resta à Casa Rosada torcer pela recuperação econômica do país e que o
ex-presidente Néstor Kirchner retome o comando sobre o Partido
Justicialista (PJ), algo muito difícil de acontecer.
No México, a expectativa é que 2010 seja melhor que 2009. Por conta
da vinculação do país com a economia norte-americana, o PIB mexicano foi
fortemente atingido. Além de derrubar a popularidade do Presidente Felipe
Calderón, a conjuntura econômica desfavorável alavancou novamente o
lendário Partido da Revolução Institucional (PRI). Com cerca de três anos
de governo pela frente, Calderón aposta na recuperação da atividade
econômica para neutralizar seus dois principais adversários: o PRI e o
líder nacional Manuel López Obrador, do PRD.
No Bloco Bolivariano (Venezuela, Equador e Bolívia) podemos
aguardar um crescimento da retórica antiamericana. Na Venezuela,
Hugo Chávez testará sua popularidade e a do Partido Socialista Unido da
Venezuela (PSUV) nas eleições legislativas. Diferentemente de quatro anos
atrás, a oposição não boicotará as eleições, o que deve deixar a disputa
mais acirrada. No entanto, a oposição venezuelana padece de um mal muito
semelhante ao da oposição boliviana: não há articulação, há muitas
desavenças internas e disputas que desgastam seus nomes mais fortes. Desta
forma, caso não haja uma reestruturação sobre o que a oposição realmente
almeja alcançar, Chávez observará a implosão da oposição e terá uma
campanha relativamente tranquila. Na área econômica, o governo aposta que
o preço do barril do petróleo se valorize no mercado mundial. Se isso não
ocorrer, as dificuldades serão grandes, já que mais de 45% do Orçamento de
2010 foi destinado para gastos sociais. Além disso, a reserva que Chávez
conseguiu guardar quando o preço do barril estava acima dos US$ 100 já
está perto do fim. Ele depende, portanto, fortemente de um aumento no
preço do barril.
No Equador, o desafio do Presidente Rafael Correa será manter sua
elevada popularidade (cerca de 58% segundo as últimas pesquisas). Assim
como na Venezuela, o país terá problemas econômicos pela frente.
Dentro do Bloco Bolivariano, as atenções estarão voltadas para a
Bolívia. Após o resultado da última eleição presidencial, o
Movimento ao Socialismo – partido do Presidente Evo Morales – conquistou a
hegemonia no sistema político. O MAS, além de manter o controle da Câmara
dos Deputados, obteve maioria absoluta na Câmara dos Senadores. Assim, a
soma da popularidade de Morales com o poder conquistado pelo MAS deverá
fortalecer o projeto nacionalista-indigenista do mandatário boliviano. A
tendência é que a chamada “Refundação da Bolívia”, que foi travada pelo
Senado em diversas oportunidades, avance. Outro fator que ajuda Evo
Morales é a falta de articulação da oposição. Podemos esperar um governo
um pouco mais radical na Bolívia. Desta vez, Morales não terá tantos
entraves burocráticos, políticos e judiciais para implementar as mudanças
previstas na nova Constituição.
As políticas domésticas transcorrerão em 2010 muito semelhantes ao que
ocorreu em 2009 em todos os países. A geopolítica continental poderá
encontrar algumas movimentações um pouco mais diferentes. A conclusão das
compras militares pelo Brasil (caças, blindados, helicópteros e
submarinos) estimulará outros países a observarem seus próprios programas
militares. A Argentina, por exemplo, está aguardando algumas definições
sobre o Brasil para iniciar o seu processo de modernização das Forças
Armadas. Comenta-se que a escolha dos caças que o Brasil fizer afetará
diretamente a escolha que a Força Aérea Argentina fará. O Equador deverá
ser outro país que buscará uma modernização de suas Forças Armadas. O
Mercosul, por sua vez, iniciará uma nova fase em 2010. Com a entrada da
Venezuela, naturalmente, temas políticos passarão a fazer parte da agenda
do bloco. Isso poderá prejudicar a sobrevivência do Mercosul, uma vez que
já existe um membro pleno (Uruguai) onde a sociedade já discute se vale a
pena ou não continuar dentro do bloco.
Friday, September 25th, 2009
Como não poderia deixar de ser, a situação em Honduras é o grande tema da
semana na América Latina. O retorno de Manuel Zelaya ao país ainda é uma
história mal contada, que tem no Brasil um dos grandes protagonistas dessa
história.
Independente da forma que Manuel Zelaya possa ter entrado no país, o fato
é que baseado em seu próprio cronograma, isso deveria acontecer antes da
Assembléia Geral da ONU. Após o golpe de Roberto Micheletti, o assunto ia
perdendo força semana após semana, enquanto Zelaya perambulava por países
em busca do que fazer.
Após 86 dias, seu retorno não tão triunfal como o tentado semanas antes,
envolveu diretamente o Brasil na situação que este tanto almejava em
muitos anos: centro dos fatos diplomáticos da região. Não podemos duvidar,
mas não é simples de acreditar, que o Brasil – líder da região – ficou
sabendo do ocorrido apenas quando Zelaya tocou a campainha da Embaixada
Brasileira em Tegucigalpa. Pelo bem de nossa diplomacia, acredito que o
Brasil já tivesse informações sobre o fato antes deste acontecer.
O abrigo concedido ao Presidente deposto é perfeitamente correto e
compreendido. Como o Brasil reconhece Zelaya como o Presidente legítimo de
Honduras, como poderia nossa embaixada mandá-lo dar meia volta e buscar
outro abrigo? Nesse caso, o governo brasileirou agiu corretamente e de uma
maneira feliz. No entanto, o erro de um País que busca a condição de
mediador global foi a de dar ao Presidente Zelaya um microfone e
autorizá-lo a incitar a população direto da varanda da Embaixada
Brasileira em Tegucigalpa. A partir desse momento, o Brasil perdeu a
condição de mediador e passou a ser um colaborador. Como colaborador de
alguém que é inimigo do governo atual (legítimo ou não), nada mais natural
do que esperar alguns atos de retaliação (tais como corte de água, luz e
telefone).
O Brasil vem a cada ano assumindo um papel cada vez maior de liderança
regional. Com toda a força e tradição do país mais poderoso da região,
alguns atos são vistos com dúvida. Jornalistas argentinos disseram que
Honduras poderia ser o “Waterloo” de Lula na política externa. Na
Colômbia, a indagação foi uma só: como que o Brasil não tomou conhecimento
de toda a ação?
A imagem que fica foi a de um plano muito bem arquitetado por Hugo
Chávez – o avião que levou Zelaya até a fronteira era venezuelano e seu
contato telefônico quase diário é com Chávez, e não com Lula. E no momento
da polêmica, eis que surge Zelaya batendo na porta. Essa situação
arquitetada por um terceiro país, a Venezuela, poderá trazer alguns lucros
e muitos problemas para a imagem da diplomacia brasileira.
Sabe-se que o governo brasileiro tenta convencer Zelaya a aceitar asilo no
Brasil. Desta forma, a tensão em torno da embaixada diminuiria e o diálogo
seria a única saída. O caminho da violência, apesar de ser levado em
consideração, não é algo muito viável no momento. Para que uma eventual
guerra civil ocorra, uma ruptura nas Forças Armadas seria essencial. No
caso de Honduras, tanto as Forças Armadas quanto o Congresso e o
Judiciário se encontram a favor de Roberto Micheletti, além de uma
importante parcela da população. Zelaya, por outro lado, ainda não
encontra o número suficiente de simpatizantes dentro das Forças Armadas
para que esta ruptura ocorra. Na população, aqueles que apoiam Zelaya não
constituem a maioria.
Micheletti tentará vencer Zelaya e o Brasil na base do cansaço. O Brasil
tentará convencer Zelaya a aceitar o asilo político. Assim, dificilmente
algo que fuja desse espectro poderá ocorrer.
Tuesday, September 22nd, 2009
A manifestação do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, de que seu país e os EUA devem promover o progresso e a democracia em outros países do continente pode indicar que a decisão do governo brasileiro em dar asilo para o presidente deposto Manuel Zelaya, na sua embaixada em Tegucigalpa, conta com respaldo norte-americano.Mesmo que o Brasil seja politica e economicamente uma grande força na região, dificilmente o país entraria na crise política hondurenha sem o respaldo de Washington.
A ousada decisão brasileira foi importante para neutralizar a ação do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. No entanto, a tensão em Honduras está crescendo.
Na manhã de hoje, as forças de segurança cercaram a embaixada brasileira numa tentativa de forçar o Brasil a entregar Zelaya.
Mais do que isso, o governo de facto, liderado pelo presidente Roberto Micheletti, acusou o Brasil de interferir nos assuntos internos de seu país.
Mesmo que não se fale nada a respeito, os EUA podem estar agindo nos bastidores nesta crise política. Aliás, Honduras é um país dependente de Washington. Os norte-americanos respondem por 67% das exportações e 52% das importações hondurenhas.
Além disso, o sucesso de uma intervenção brasileira seria positiva para impedir a movimentação de Chávez e a consequente postura anti-americana que viria da Venezuela.
(Equipe Arko América Latina – americalatina@arkoadvice.com.br)
Friday, September 18th, 2009
Após uma semana em que a compra de armamentos militares por parte do
Brasil foi um tema de repercussão continental, o assunto sofreu uma
pequena mutação. Naturalmente, como a compra dos caças ainda não foi
formalizada e vem gerando problemas para o Ministro da Defesa, Nelson
Jobim, e para o Presidente Lula, o assunto continuará bastante vivo e
discutido não só domesticamente mas também entre nossos vizinhos. Era de
se esperar, porém, que após discussões e especulações específicas
envolvendo a compra de aviões, os atores globais envolvidos nessas compras
passassem a ter um papel mais importante.
A América do Sul se tornou um palco bastante interessante, o que não
ocorria desde os tempos das ditaduras regionais. A busca por influência
política ganhou um status que não é compatível com os tempos de paz que
vivemos. Por outro lado, esse interesse de vários países do mundo em
marcar território na América do Sul é perfeitamente compatível após o
desempenho do Brasil e de alguns outros vizinhos na forma de lidar com os
impactos da crise econômica.
Em parte, a compra de armamentos militares apenas ilustram o
posicionamento geopolítico que observamos. A Colômbia, por exemplo, se
consolida cada vez mais como um forte aliado dos EUA na região. Está bem
claro o interesse que os dois países têm em cooperar, principalmente após
os expressivos resultados que esta parceria vem gerando nos últimos anos
contra os guerrilheiros das FARC. À medida que a Colômbia ganha
envergadura, não só pela sua admirável recuperação frente ao narcotráfico
e a guerrilha, o país vem se posicionando como um importante pólo de
atração de indústrias e mercado para obras de infraestrutura. O resultado
disso é uma solidificação na parceria com os EUA, que em algumas vezes
acaba gerando problemas com seus vizinhos. Recentemente, o Presidente
Álvaro Uribe deixou bem claro seu descontentamento frente à “falta de
sensibilidade” que alguns países têm em relação à batalha travada entre
Colômbia e as FARC e sobre a necessidade de utilizar apoio
norte-americano.
O maior crítico desta parceria é o venezuelano Hugo Chávez. Com o intuito
de sustentar uma política de resultados reais de curtíssimo prazo e sem
grandes perspectivas de crescimentos sólidos, Chávez argumenta que o apoio
norte-americano aos colombianos visa apenas um grande objetivo: invadir a
Venezuela para tomar o petróleo da Faixa do Orinoco. Este argumento
surreal serve muitas vezes para mascarar vários problemas domésticos que a
Venezuela vem enfrentando. Como resposta a esta parceria, Chávez trata de
iniciar algo similar com a Rússia, por mais que os russos não tenham lá
tanto interesse assim. A visita desta última semana de Chávez a Moscou
deixou claro para analistas de todo o mundo que o interesse russo não vai
além da comercialização de armamentos para a Venezuela. Se trata de uma
relação cliente-empresa. A oferta de Chávez para que a Rússia passasse a
contar com bases militares no país não foi levada tão a sério em Moscou
quanto foi aqui na América do Sul. Entre os russos, sabe-se que não vale a
pena envolver-se em um jogo de intrigas quando o que a Rússia
verdadeiramente quer é promover suas indústrias.
Para quem observa a configuração que vem se formando, existe na região uma
presença política forte, evidente e com objetivos claros (EUA com
Colômbia). Há também algo que não pode ser chamado de parceria, com
interesses exclusivamente comerciais de um lado e políticos de outros
(Rússia e Venezuela). Para apimentar o ambiente, o Brasil surge com novos
ingredientes. Já foi discutido insistentemente a questão dos armamentos,
mas há um interesse muito grande da França em obter um espaço perdido na
esfera de influência sul-americana.
Por mais que o Brasil seja um país de grande envergadura e potencial que
aos poucos se torna realidade, a França ainda acredita no Brasil em uma
posição inferior. Se trata de uma relação entre português e índio, mas os
“espelhinhos” que nos oferecem são modernos (?) caças Rafale. O Brasil é
um país bem diferente de Colômbia e Venezuela. Claro que temos o que
aprender com as virtudes do primeiro e os fracassos do segundo, mas não
somos um campo fértil para uma presença exagerada de um país estrangeiro.
Faz bastante sentido o posicionamento dos EUA frente à Colômbia e
vice-versa. No entanto, em uma época em que independência e autonomia são
palavras-chave, não faz sentido o Brasil portar-se como um país menor e
amarrar-se a um único parceiro.
Independente disso, as repercussões do que Colômbia, Venezuela e Brasil
fizerem na região afetará fortemente os outros vizinhos. A Argentina já se
prepara para tentar melhorar seus armamentos militares. Certamente
dependendo do que o Brasil escolher, a Argentina tenderá a seguir um
caminho semelhante. O Peru, como foi sinalizado esta semana, buscará uma
aproximação ainda maior com os EUA. Regionalmente, o Peru poderá ser a voz
de solidariedade para com a Colômbia, caso esta realmente deixe a Unasul.
Já Bolívia e o Equador seguirão o mestre – no caso, a Venezuela.
Em resumo, a América do Sul está cada vez mais politizada. A última
reunião da Unasul em Quito deixou isso bem claro. Com a passagem da crise,
os temas políticos voltarão cada vez com mais força. O Brasil deverá
assumir um forte papel de mediação, dando o exemplo de não atrelar-se a um
só país. A lógica recente das relações internacionais defende a
multiplicação de parceiros – e isto era, inclusive, algo bastante
defendido por Lula em 2002. O Brasil deveria ter vários parceiros para não
depender apenas de um, e assim diminuir seu raio de ação.
Wednesday, September 16th, 2009
A semana na América Latina foi bastante movimentada pelas repercussões do
comentário do Presidente Lula ao lado do Presidente francês, Nicolas
Sarkozy. Além de ser o convidado de honra e do fato de ser o Ano da França
no Brasil, Sarkozy veio com uma missão simples e outra relativamente
difícil. A simples seria concretizar o que já estava decidido ou
parcialmente decidido: a compra dos submarinos e helicópteros. A missão
difícil seria a de virar o jogo em relação aos caças que o Brasil deseja
comprar.
Ainda sem ter um parecer técnico, o Rafale (caça francês) não era visto
como favorito dentro da FAB. A escolha dos engenheiros é aparentemente
pelo avião sueco Gripen NG, enquanto os pilotos têm preferência pelo
norte-americano Super Hornet F-18. Baseado na informalidade, Lula
facilitou o trabalho de Sarkozy quando argumentou que a escolha do Rafale
seria por este estar “transferindo tecnologia”. No programa FX-2, a
transferência de tecnologia é uma condição eliminatória desde o início da
licitação. Todos os três atuais competidores apresentaram sólidas
propostas de transferência de tecnologia.
Independente do mérito da melhor ou pior escolha para o Brasil, Lula criou
um problema grave. A competição se tornou um alvo relativamente simples de
advogados que queiram paralisar judicialmente o FX-2. Previsto para
terminar somente em outubro, Lula ignorou a FAB e criou um mal-estar
diplomático com EUA e Suécia. Na América Latina, a repercussão foi
imediata. A imprensa colombiana, por exemplo, busca saber se haverá na
América do Sul uma disputa por influência entre EUA, França e Rússia.
Segundo os colombianos, a lógica se dará pelo apoio irrestrito dos
americanos à causa colombiana contra as FARC, a aproximação entre Chávez e
Rússia e agora, pela possibilidade de o Brasil comprar tudo “de uma cesta
só”.
A soberania, palavra repetida diversas vezes pelo governo brasileiro, se
coloca em uma situação dúbia: depender de um só país para armamentos
estratégicos, bem como suas peças e know-how. Esta mesma soberania foi o
tema no qual os formadores de opinião argentinos resolveram bater. O
Brasil realmente vai assumir uma posição global predominante, ou está
querendo acelerar esse processo se amarrando com um país alinhado? Para os
argentinos, a compra dos armamentos brasileiros é de grande importância.
Em algumas ocasiões, esses deixaram claro que, no caso dos caças, a
escolha do Brasil poderia ser a mesma da Argentina. No entanto, com o
valor estratosférico do Rafale, que mesmo reduzido continuará elevado
frente aos outros dois concorrentes, a Argentina não poderá comprar nem um
esquadrão completo. Como parte do pacote de sedução oferecido por Sarkozy,
o Brasil terá exclusividade para vender Rafales na América Latina. No
entanto, qual país da região terá condições de comprar esse avião?
No México, o tom foi de ironia. Formalmente a compra doas armamentos
brasileiros foi muito pouco discutida, mas em conversas com fontes do
governo mexicano estes acreditam que o Brasil poderá fazer um negócio
complicado com a França caso compre mesmo os Rafale. Pondera-se,
inclusive, que este avião não conseguiu ser vendido fora da França. Foram
14 licitações perdidas e muitas confusões. Não há dúvida que se trata de
um excelente caça, mas correndo um grande risco de ter no Brasil e na
Líbia seus únicos compradores.
Obviamente não foi só a compra brasileira que movimentou as especulações e
notícias na região. Se este foi, sem dúvida o assunto mais importante na
geopolítica regional, importantes países tiveram movimentações domésticas
nos últimos dias. Na Colômbia, o Presidente Álvaro Uribe se aproxima -
ainda que a passos de formiga – de um terceiro mandato. Um referendo
popular poderá ocorrer, e nesse caso Uribe com certeza sairá vitorioso.
Na Argentina, Cristina Kirchner foi capaz de resgatar um problema que
estava aparentemente superado. A crise com os ruralistas foi retomada,
podendo, inclusive, ser maior do que a última, ocorrida alguns meses
atrás. O tiro no pé de Cristina foi vetar a lei de emergência agropecuária
após o Congresso ter aprovado o projeto. Manifestações são esperadas em
todo o paós ao longo da próxima semana, bem como pressões internas do
partido e do governo para que Cristina volte atrás.
Na Bolívia, a campanha eleitoral está sendo relativamente tranquila para
Evo Morales, que possivelmente poderá vencer no primeiro turno. Com
fortíssimo apoio dos movimentos sociais no país, Morales encontra uma
oposição fragmentada e sem poder de fogo. Além disso, não há uma
hierarquia de ataques provocados pela oposição, e sim críticas jogadas sem
uma coordenação prévia. Por mais que Morales tenha oferecido um arsenal de
razões para que seu governo seja atacado pela oposição (problemas na
distribuição de gás e combustível, por exemplo), o Presidente boliviano
consegue avançar sem muitos problemas rumo à reeleição.
Wednesday, September 9th, 2009
Sarkozy foi ao Brasil para finalizar acordos militares
O acordo para a compra de caças franceses pelo Brasil, anunciado na segunda-feira pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy, ilustra a corrida armamentista vivida atualmente pela América Latina, diz o jornal francês Le Monde desta terça-feira.
“Sarkozy também finaliza em Brasília a venda de helicópteros de combate e a construção de quatro submarinos convencionais e um submarino nuclear – o que configura o maior contrato militar já assinado pelo Brasil”, afirma o diário.
“Com isso, o Brasil está tentando reforçar sua posição estratégica na região (da América Latina) e se opor à influência americana sobre o continente sul-americano.”
Em entrevista ao Le Monde, analistas ressaltam que a decisão do Brasil de procurar parceiros fora da América Latina para a obtenção de know-how de tecnologia militar pode “provocar uma corrida armamentista no continente e ser um obstáculo a uma maior cooperação com os países vizinhos no setor da defesa”.
Colômbia e EUA
Segundo o jornal, o orçamento militar dos países sul-americanos aumentou 91% entre 2003 e 2008.
O diário cita como exemplos a aquisição pelo Chile de tanques Leopard 2 e o recente acordo de cooperação militar entre os Estados Unidos e a Colômbia, que provocou reações negativas da Venezuela e do próprio Brasil.
“Esses anúncios aceleraram a compra de armamentos por Argentina, Peru, Equador e Bolívia”, afirma o Le Monde.
“Além disso, a tensão se agravou nos últimos meses, com o golpe de Estado em Honduras, que lembrou aos países latino-americanos que as armas ainda têm sua voz no continente.”
Ainda de acordo com os analistas ouvidos pelo jornal, por se oferecer a fabricantes franceses, o Brasil acabou contrariando seu próprio discurso de ser soberano em matéria de armamentos.
“O Brasil deveria dar o exemplo e não contribuir para a criação, no continente, de um cenário de possíveis enfrentamentos geopolíticos entre grandes potências estrangeiras”, disse ao diário o analista brasileiro Thiago de Aragão.
‘Bilhete premiado‘
O acordo entre França e Brasil também foi destaque no jornal francês Libération, segundo o qual, trata-se de um “bilhete premiado” para a indústria bélica francesa, que atualmente atravessa uma crise.
O diário informa que os aviões Rafale, que o Brasil deve importar, serão vendidos “nus”, o que deve obrigar o país a comprar também da França os armamentos que vão equipar as aeronaves.
O Libération diz ainda que, sem o mercado brasileiro, a fabricante do Rafale, a Dessault Aviation, poderia fechar.
“Desde sua chegada ao poder, Nicolas Sarkozy se dedica a dar a Serge Dessault, o grande patrão da empresa e também do jornal Le Figaro, um lugar central no jogo industrial francês”, comenta o diário de oposição.
Wednesday, September 9th, 2009
A escolha do Brasil em comprar todos seus armamentos estratégicos de um só país não foi a escolha mais acertada. De forma alguma sou contra a compra desses armamentos, muito pelo contrário! O Brasil está completamente para trás militarmente e essas compras são vitais e oportunas.
No entanto, não precisa ser um gênio para compreender que obviamente se gera uma corrida armamentista no continente. Esta, iniciada anos atrás. Não por culpa do Brasil, mas pela natureza que qualquer reaparelhamento gera.
O fator geopolítico deve ser calmamente analisado. O Brasil não precisa ficar retraído e abortar qualquer aquisição. No entanto, com tudo comprado de um só país, passamos a ter três núcleos no continente, cada um sob forte influência de alguma potência estrangeira. A Venezuela possui armamentos de sua maioria russos. A Colômbia, por sua vez, optou por ter os EUA como seu grande aliado na região. O Brasil optando exclusivamente pela França, poderia gerar um situação de tensão política entre França, EUA e Rússia na América do Sul por influência.
Caso o Brasil tivesse diversificado suas compras, tendo optado pelos caças americanos ou suecos, naturalmente esta possível tensão geopolítica não existiria.
Tuesday, September 1st, 2009
A estratégia do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, de atuar como um líder que disseminaria o bom senso durante a Cúpula Extraordinária da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) não deu certo. Isso ocorreu pelo seu próprio comportamento.Na sua fala, Lula não apresentou nenhuma contribuição efetiva para solucionar a polêmica envolvendo o acordo militar firmado entre EUA e Colômbia. Além disso, o mandatário brasileiro discutiu com o presidente do Equador, Rafael Correa, depois de ser acusado de conduzir mal os debates.
Em seu discurso, Lula retomou a necessidade de um encontro com o presidente dos EUA, Barack Obama. Insistiu ainda na convocação da reunião dos ministros do Conselho de Defesa e do Conselho de Combate ao Narcotráfico da Unasul, em setembro.
Apenas de leve, Lula citou a exigência de garantias jurídicas de que as ações das forças americanas se restringirão ao território colombiano. Acentuou um pouco mais apenas o temor de invasão da Amazônia.A consequência do insucesso dessa movimentação de Lula é que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, fica com o espaço em aberto para expandir seu “Socialismo do Século XXI”, juntamente com seus colegas Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia).
Assim, mais uma vez, a chamada esquerda moderna—liderada por Lula, Michelle Bachelet (Chile), Alan García (Peru) e Tabaré Vázquez (Uruguai)—perde espaço para a esquerda tradicional, que cultiva os valores herdados da ex-União Soviética.
(Equipe Arko América Latina – americalatina@arkoadvice.com.br)
Friday, August 7th, 2009
Mesmo de costas para a América Latina, seus acontecimentos passaram a influenciar cada vez mais o Brasil. A própria formulação da política externa brasileira é diferenciada entre a de “curto alcance”, para a região e a de “longo alcance”, para o mundo.
Ao mesmo tempo que o Brasil passou a se beneficiar de vários aspectos oriundos dos nossos vizinhos na região, a instabilidade institucional, social e econômica de muitos deles também trouxeram alguns problemas. O reflexo que cada gesto do Brasil gera nesses países, fizeram com que a tão almejada liderança regional do país começasse a se consolidar ainda mais.
Hoje, o Brasil tem na América Latina (como um todo) um dos principais parceiros econômicos. Com dinheiro, esses países se viraram para o Brasil na hora de comprar o básico. No entanto, há muitos riscos gerados nesses mesmos parceiros que hoje nos afeta muito mais do que afetava a quinze, vinte anos.
A Bolívia é um importante foco de risco para o Brasil nos próximos anos. Enquanto não houver uma solução domestica na Bolívia para suas diversas instabilidades, o Brasil não terá tranqüilidade e segurança em sua fronteira. A produção de coca, por mais que tenha um início bem intencionado (apenas para mascar), possui um resultado final trágico que afeta diretamente na instabilidade social da juventude brasileira em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. A droga que vem da Bolívia, em grande parte pelo afrouxamento da repressão local, tem um impacto devastador na estabilidade social brasileira. As tensões políticas oriundas das divisões étnicas se parece a cada dia com uma bomba relógio prestes a explodir. Uma eventual Guerra civil, que já pareceu mais provável, mas ainda não pode ser descartada, traria impactos terríveis para o Brasil gerando um grande problema de fluxo de imigração boliviana para o Brasil.
A Bolívia é apenas um exemplo, mas temos o Paraguai, com a pirataria como um ativo valiosíssimo para a manutenção da economia do país. Essa pirataria, que tem seu destino no Brasil é capaz de destruir pequenas indústrias brasileiras, principalmente na área de tecnologia, por não conseguirem competir com preços onde os impostos não são acrescidos. Para completar, rumores de que o Paraguai poderá se tornar a próxima Honduras nos anos a seguir, preocupam ainda mais, por se tratar de mais um problema fronteiriço.
Olhando mais acima, a Venezuela se trata de mais um problema moral do que prático para o Brasil. A destruição potencial que a Venezuela pode gerar tem na sua população a maior vítima. Claro que hoje e em um futuro próximo, o Brasil não atacará nem criticará a ausência de valores democráticos no país de Chávez. Como El Comandante terminou de destruir a já fraca indústria venezuelana, o Brasil viu suas exportações quintuplicarem e hoje exporta US$ 5 bilhões para nosso vizinho no norte. A equação “bastante dinheiro + fracasso administrativo = lucros fabulosos para a indústria brasileira”. Hoje exportamos tudo para a Venezuela, até biscoitos e logo será até água mineral. Por tudo isso, o governo e os exportadores preferem a manutenção de Chávez no poder.
A Colômbia já foi uma fonte maior de riscos para o Brasil. O governo do Presidente Álvaro Uribe conseguiu o impossível: em oito anos destruiu 80% das FARC. O resultado a longo prazo é que o fluxo de cocaína vindo da Colômbia para o Brasil deva diminuir.
A Argentina também representa um risco constante para o Brasil. Porém, como a Argentina não consegue fazer muitas coisas (na política e economia) bem feitas, nem suas crises estão conseguindo afetar o Brasil como antigamente. Hoje e amanhã os possíveis riscos impostos pela Argentina não afetarão diretamente o Brasil, mas sim acelerará a inutilidade do MERCOSUL. Para o Brasil, poderá até ser um bom resultado, já que no MERCOSUL chegamos a sofrer com o fato de não podermos ter um acordo bilateral com a China pois o Paraguai reconhece apenas Taiwan (principal exportador de produtos tecnológicos para Assunção).
Tuesday, July 28th, 2009
O Banco do Sul, integrado por sete países sul-americanos, entrará em operação em 2010, afirmou na última sexta-feira (24) o ministro coordenador da Política Econômica do Equador, Diego Borja. Segundo a agência Efe, ele disse também, durante a Cúpula do Mercosul em Assunção, que avançou em todos os processos para sua constituição de forma responsável.Em maio, Brasil, Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai, Uruguai e Venezuela firmaram o acordo definitivo para inaugurar o Banco do Sul, com um capital inicial de US$ 7 bilhões – dos quais Brasil, Argentina e Venezuela fornecerão US$ 2 bilhões, cada um. “Superamos os empecilhos, já definimos um esquema de votação, de modo que acho que saiu de uma estagnação, que certamente houve, e que agora já vai entrar em operação”, ressaltou o ministro.
Borja informou ainda que os investimentos na entidade regional serão feitos em um prazo de dez anos, de acordo com o tamanho das economias de cada um dos parceiros. Equador e Uruguai investirão US$ 400 milhões cada um e os US$ 200 milhões restantes serão desembolsados igualmente pela Bolívia e pelo Paraguai.
(Equipe Arko América Latina – americalatina@arkoadvice.com.br)